A proximidade da eleição presidencial brasileira começa a trazer uma preocupação adicional para parte da comunidade que vive nos Estados Unidos. Além da distância até os locais de votação, brasileiros em situação migratória vulnerável avaliam se irão às urnas diante do receio provocado pela intensificação das ações de fiscalização imigratória no país.
O assunto ganhou ainda mais atenção após declarações recentes feitas no Maine. Bobby Charles, candidato republicano ao governo do estado, afirmou que pretende solicitar a presença de agentes federais em locais de votação durante as eleições americanas de novembro. A proposta seria apresentada a Tom Homan, responsável pela política de fronteira do governo de Donald Trump.
Segundo informações divulgadas pela Associated Press, a declaração foi feita durante uma reunião com republicanos em 20 de agosto. Charles argumentou que a atuação de agentes do Immigration and Customs Enforcement (ICE) e de US Marshals poderia contribuir para impedir irregularidades, episódios de violência e intimidação de eleitores.
A ideia provocou críticas de autoridades responsáveis pelas eleições no Maine e reacendeu uma discussão que já vinha ocorrendo em outros estados. Autoridades eleitorais americanas haviam solicitado anteriormente garantias ao governo federal sobre a atuação de agentes de imigração durante o processo eleitoral de 2026.
Até o momento, porém, não existe anúncio de uma operação nacional do ICE em centros de votação. Tampouco há informação oficial de que agentes serão enviados para locais utilizados exclusivamente pela comunidade brasileira para participar das eleições do Brasil.
Brasileiros demonstram preocupação
Mesmo sem uma operação anunciada, a repercussão desse debate chegou à comunidade brasileira. Uma reportagem da Folha de S.Paulo mostrou que moradores de Nova Jersey estão preocupados com o deslocamento para votar no primeiro turno da eleição presidencial brasileira, previsto para 4 de outubro.
A apreensão é maior entre pessoas que não possuem situação migratória regularizada ou que ainda aguardam uma decisão sobre seus processos nos Estados Unidos. Com o aumento das operações migratórias, parte desses brasileiros passou a evitar determinados locais, deslocamentos e grandes concentrações de pessoas.
Nesse cenário, o movimento de milhares de eleitores brasileiros em direção a um mesmo endereço pode ser suficiente para gerar insegurança, mesmo sem qualquer indicação de que o ICE pretenda realizar uma ação nesses espaços.
Brasileiros residentes no exterior votam apenas para presidente da República. Nos Estados Unidos, a organização do processo fica sob responsabilidade das representações diplomáticas brasileiras, que definem os locais onde as urnas serão instaladas.
Local de votação busca evitar filas nas ruas
Na região atendida pelo Consulado-Geral do Brasil em Nova York, que reúne eleitores de Nova York, Nova Jersey e Filadélfia, a escolha do espaço para votação também levou em consideração questões de segurança e capacidade.
De acordo com a reportagem da Folha, foi selecionado um complexo educacional no Queens capaz de receber grande número de pessoas dentro de suas instalações. A estratégia reduz a necessidade de longas filas nas calçadas e a exposição dos eleitores em áreas públicas.
O consulado informou que sua própria sede não teria estrutura suficiente para atender o fluxo estimado de aproximadamente 50 mil eleitores da região. O mesmo complexo já foi utilizado anteriormente em uma eleição presidencial organizada pelo Consulado-Geral do Peru.
A busca pelo espaço também teria contado com a participação de órgãos da cidade de Nova York, incluindo representantes da área de relações internacionais e da polícia local.
Para brasileiros que vivem em cidades de Nova Jersey com comunidades expressivas, como Newark, a localização no Queens poderá representar um deslocamento maior. Ainda assim, a prioridade foi encontrar uma estrutura capaz de acomodar os eleitores de maneira organizada e com menos permanência nas ruas.
Receio pode influenciar comparecimento
A discussão envolvendo as eleições americanas e a votação brasileira ocorre em situações distintas. A declaração feita no Maine envolve uma proposta para uma eleição dos Estados Unidos. Já no processo eleitoral brasileiro, não há confirmação de qualquer plano do governo americano para posicionar agentes de imigração nos locais onde funcionarão as urnas brasileiras.
O possível impacto, portanto, está relacionado principalmente ao medo. Para quem enfrenta incertezas migratórias, a possibilidade — mesmo não confirmada — de encontrar agentes federais durante o trajeto ou nas proximidades de uma grande concentração de imigrantes pode pesar na decisão de sair de casa.
Dados citados pela Folha indicam que aproximadamente 2 milhões de brasileiros vivem atualmente nos Estados Unidos, enquanto cerca de 265 mil estão registrados para participar das eleições brasileiras.
Haverá votação em diferentes regiões do país, incluindo Nova York, Boston, Miami, Orlando, Chicago, Houston, Los Angeles, San Francisco e Washington.
A dimensão real desse receio sobre o comparecimento só deverá ficar mais clara no dia da eleição. Por enquanto, não há indicação de interferência do ICE na votação brasileira, mas o ambiente criado pelas operações migratórias e pelo debate político americano pode acabar produzindo outro efeito: fazer com que alguns brasileiros deixem de exercer seu direito ao voto por medo de possíveis encontros com autoridades de imigração.





